Eu estudei em
universidade federal e posso dizer que o ensino é muito bom; existem
professores realmente interessados em ensinar e se aprende muito com eles.
Infelizmente, ganham mal, mas isto é um retrato da educação em nosso país que,
creio eu, muito dificilmente irá mudar.
Nesses lugares, sempre
existem os chamados “progressistas”; isto é, aquelas pessoas que defendem
outras, sem perguntar se essas últimas lhes pediram tal favor. Nesse balaio,
encontram-se os comunistas, socialistas e uma gama de gente que pensa que pode
resolver os problemas do mundo tirando de quem tem para dar a quem não tem.
Acreditam que podem resolver todas as mazelas da humanidade repartindo entre
todos os bens e as propriedades, como se isso já não tivesse sido tentado e dado
muito errado em outros países. Enfim, vivem num mundo de ilusão.
Nesta universidade onde
estudei (logicamente não direi o nome) havia uma turma que os outros chamavam
de “bichos-grilos” ou pela sigla BGs. Eram hippies fora de época, pessoas que
se vestiam como mendigos e acreditavam que viviam fora do sistema em uma
felicidade sem limite.
Era fácil reconhecê-los: os
homens usavam bermudas, camisas desbotadas (ou com a cara do Che Guevara, o
deus deles), bermudas e havaianas; alguns usavam cabelos compridos e barba.
As
mulheres usavam saias compridas, camisas desbotadas e cabelos compridos, bolsas de chrochê (usar
sutiã nem pensar, era considerado opressão e depilar também era taxado como um
ato de dominação do homem).
E banho, tanto para eles, como para elas, era um ato
esporádico, considerado símbolo da sociedade de consumo que eles queriam evitar
ao máximo.
Essa turma vivia nos
Diretórios Acadêmicos, tentando mudar o mundo, enquanto entravam na erva do
capeta. Eu que já tinha uma certa noção das coisas, não acreditava que pessoas
com um certo grau de entendimento, pudessem viver daquela maneira.
E o mais complicado era
conversar com eles: você tinha que ter cuidado, pois uma palavra mal colocada e
você era taxado de reacionário e burguês. Certa vez, fui a uma república de um
colega e um BG começou a conversar comigo. Fiquei impressionado com o nível de
cultura dele, mas as conclusões eram ridículas. Era como se o cara tivesse sido
congelado nos anos 1960 e tivesse acordado ontem (isso em 2000, 2001). Para
ele, tudo era culpa do capitalismo e ponto. O mesmo capitalismo que o
alimentava e o vestia. Quando saí de lá, vi o quanto o ser humano pode ser
estúpido e ignorante (na maioria das vezes, quem acha que sabe tudo e tem todas
as respostas, age assim).
Pouco tempo depois, num
churrasco na casa de outro colega, nós comentávamos sobre porque existiam os
BGs. Nisso, um cara mais velho, quase se formando, falou uma coisa que achei
realmente genial:
“Quando essas pessoas
entram na faculdade estão achando que vão mudar o mundo e querem se enturmar;
aí entram nessa onda de sociedade alternativa e tal. Só que com o passar do
tempo, a maioria deles vê que isso é uma barca furada, não leva a lugar algum. Mas,
como têm um tanto de tranqueira em casa, quilos de maconha e não podem perder a
grana investida (o capitalismo falando!), precisam repassar isso para alguém.
Aí entram os calouros e o ciclo se reinicia eternamente. Alguns, no entanto,
não se livram disso e morrem desse jeito”.
Há alguns anos, retornei à
minha universidade para um encontro de colegas. Encontrei um cara da minha
época, um BG com 36 anos; não havia mudado nada, só que agora a barba e o
cabelo já apresentavam uns fios brancos, mas as mesmas ideias ultrapassadas
estavam lá. Não havia superado aquela fase; o cara do churrasco tinha acertado
na mosca.
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