terça-feira, 22 de outubro de 2019

"ORGULHO DE POBRE"



É normal que as pessoas possuam orgulho; na verdade, ter os chamados brios é que nos difere dos animais. Um cachorro, um gato, um leão, enfim, qualquer animal pode ter algum tipo de inteligência, mas ter orgulho é algo totalmente humano.


Sendo assim, ter orgulho, gostar de ser quem você é, é algo que nos faz nos sentirmos melhor. O problema é quando, diante de alguma situação da vida, o orgulho toma conta do infeliz e ele não pensa em mais nada. 


Existem muitos tipos de orgulho, mas o pior de todos é o chamado “orgulho de pobre”. Essa merda acontece quando a pessoa tem direito a uma coisa, mas, como se sente orgulhoso(a), não luta por seus direitos. Deixa para lá algo que pode ser fundamental para a sua vida, não só no aspecto econômico, mas também no social. 


Para exemplificar essa cachorrada, vamos a um exemplo prático e verídico: há quase sessenta anos, uma mulher se casou; logo descobriu que ele era um vagabundo, vivia nos bares e tinha uma amante. Essa mulher teve filhos com esse crápula (que para piorar a situação, ainda a espancava). 


Isso era uma coisa comum, na década de 1950, 1960: os maridos tinham controle absoluto sobre as mulheres e filhos. Mas, nas décadas seguintes, a situação começou a mudar e as mulheres passaram a ter mais consciência de seus direitos. 


Enfim, há mais de quarenta anos, essa mulher, cansada dessa vida de merda, resolveu juntar seus filhos e seus pertences e ir para outra cidade, longe daquele inferno. 


Parabéns para ela! Mulher de decisão e guerreira! Só que não! Aí entra em cena o "orgulho de pobre": ela era casada com ele no papel; com a separação (desquite, na época), ela tinha direito a uma boa quantia em dinheiro e terras (o safardana era filho de um fazendeiro rico). 


O que a inteligente fez? Nada! Abriu mão de seus direitos e foi viver uma vida cheia de privações com os filhos. 


Não dá para entender: se ela queria bancar a correta, tudo bem, mas que pensasse nos filhos: com o dinheiro do safado, poderia lhes garantir uma boa condição de vida, uma boa educação e, por conseguinte, um bom emprego. 


Resultado: hoje ela está doente, mora numa casa de aluguel e os filhos até que se saíram bem (mas poderiam estar melhores). 


O ex-marido juntou com a amante e foram aproveitar a vida, enquanto ela criava os filhos sozinha. Quando o infeliz morreu, veio para ela uma pequena quantia em dinheiro, uma ninharia comparada ao que ela tinha direito. 


Assim, não estou julgando ninguém, cada um faz o que quiser; todavia até para ser bobo e otário tem limite. Ter orgulho é algo muito bom e faz bem para a autoestima. 

Mas, quando se junta com uma certa presunção, faz muito mal não somente para a pessoa, mas todas aquelas que dependem da mesma.

terça-feira, 8 de outubro de 2019

PENSAMENTOS DO CAR@LHO # 09


DIVAGANDO...


Desde a minha primeira impressão da vida, descobri que esta existência é algo absurdo, uma coisa que pode enlouquecer se você levar a fundo os questionamentos mais simples, como: para que estou aqui? Por que isto aconteceu comigo? O que fiz da minha vida?

Quando mais se vive e se tenta aprender, mais se tem a convicção de que nada se sabe. Caminha-se no escuro e, por algumas vezes, um raio de luz nos guia. É algo que pode parecer desalentador, mas quando se compreende que a vida é assim mesmo, acaba-se por se sentir mais fortalecido e sábio. Parece ser como a água: o mesmo lago que você nada, pode, a qualquer momento, te afogar. 

É interessante que a medida que se aprende, se tem experiências o que era para sedimentar nossas certezas, acaba por destruir nossas convicções. Posso dizer, sem medo de errar: com 20 anos, eu me julgava muito sábio; com 30, todas aquelas certezas de uma década se foram. Isso vai sempre acontecer com o passar dos anos. A única coisa certa da vida é que nada se sabe e isso pode ser libertador para uns e angustiante para a maioria.

Não tem como construir uma existência saudável e produtiva confiando nas pessoas. Não que seja misantropismo ou raiva da raça humana, mas é bom perceber que as pessoas mudam de acordo com seus interesses. Então construir sua existência, tendo como base as pessoas, seria o mesmo que erigir um castelo no meio da areia; logo desmorona. Assim, construa a sua vida sobre o terreno das ideias, dos objetivos, pois estes alicerces são fortes e duradoiros. 

Também é bom não criar expectativas; nada é mais doloroso do que criar uma ilusão, acreditar e depois ver os sonhos irem por água abaixo. Não se deixar afetar nem pela excessiva alegria, nem pela excessiva tristeza. 

Controlar o que se pode controlar, buscar uma certa harmonia entre os diversos aspectos que compõe a vida também é deveras interessante.

Pode me dizer, com toda a razão: nossa é difícil demais! Concordarei contigo, pois afinal de contas, viver é a tarefa mais complicada e árdua que nos deparamos nesse mundo, não é mesmo!?
  

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

BICHOS-GRILOS ou BGs


Eu estudei em universidade federal e posso dizer que o ensino é muito bom; existem professores realmente interessados em ensinar e se aprende muito com eles. Infelizmente, ganham mal, mas isto é um retrato da educação em nosso país que, creio eu, muito dificilmente irá mudar.

Nesses lugares, sempre existem os chamados “progressistas”; isto é, aquelas pessoas que defendem outras, sem perguntar se essas últimas lhes pediram tal favor. Nesse balaio, encontram-se os comunistas, socialistas e uma gama de gente que pensa que pode resolver os problemas do mundo tirando de quem tem para dar a quem não tem. Acreditam que podem resolver todas as mazelas da humanidade repartindo entre todos os bens e as propriedades, como se isso já não tivesse sido tentado e dado muito errado em outros países. Enfim, vivem num mundo de ilusão.

Nesta universidade onde estudei (logicamente não direi o nome) havia uma turma que os outros chamavam de “bichos-grilos” ou pela sigla BGs. Eram hippies fora de época, pessoas que se vestiam como mendigos e acreditavam que viviam fora do sistema em uma felicidade sem limite.

Era fácil reconhecê-los: os homens usavam bermudas, camisas desbotadas (ou com a cara do Che Guevara, o deus deles), bermudas e havaianas; alguns usavam cabelos compridos e barba. 

As mulheres usavam saias compridas, camisas desbotadas e cabelos compridos, bolsas de chrochê (usar sutiã nem pensar, era considerado opressão e depilar também era taxado como um ato de dominação do homem). 

E banho, tanto para eles, como para elas, era um ato esporádico, considerado símbolo da sociedade de consumo que eles queriam evitar ao máximo. 

Essa turma vivia nos Diretórios Acadêmicos, tentando mudar o mundo, enquanto entravam na erva do capeta. Eu que já tinha uma certa noção das coisas, não acreditava que pessoas com um certo grau de entendimento, pudessem viver daquela maneira. 

E o mais complicado era conversar com eles: você tinha que ter cuidado, pois uma palavra mal colocada e você era taxado de reacionário e burguês. Certa vez, fui a uma república de um colega e um BG começou a conversar comigo. Fiquei impressionado com o nível de cultura dele, mas as conclusões eram ridículas. Era como se o cara tivesse sido congelado nos anos 1960 e tivesse acordado ontem (isso em 2000, 2001). Para ele, tudo era culpa do capitalismo e ponto. O mesmo capitalismo que o alimentava e o vestia. Quando saí de lá, vi o quanto o ser humano pode ser estúpido e ignorante (na maioria das vezes, quem acha que sabe tudo e tem todas as respostas, age assim).

Pouco tempo depois, num churrasco na casa de outro colega, nós comentávamos sobre porque existiam os BGs. Nisso, um cara mais velho, quase se formando, falou uma coisa que achei realmente genial: 

“Quando essas pessoas entram na faculdade estão achando que vão mudar o mundo e querem se enturmar; aí entram nessa onda de sociedade alternativa e tal. Só que com o passar do tempo, a maioria deles vê que isso é uma barca furada, não leva a lugar algum. Mas, como têm um tanto de tranqueira em casa, quilos de maconha e não podem perder a grana investida (o capitalismo falando!), precisam repassar isso para alguém. Aí entram os calouros e o ciclo se reinicia eternamente. Alguns, no entanto, não se livram disso e morrem desse jeito”.

Há alguns anos, retornei à minha universidade para um encontro de colegas. Encontrei um cara da minha época, um BG com 36 anos; não havia mudado nada, só que agora a barba e o cabelo já apresentavam uns fios brancos, mas as mesmas ideias ultrapassadas estavam lá. Não havia superado aquela fase; o cara do churrasco tinha acertado na mosca.




PENSAMENTOS DO CAR@LHO # 15