Tenho um tio que já está na casa do setenta. Sempre o
admirei por ele ter conquistado as coisas devido ao seu próprio esforço e
trabalho, tal qual meu pai também fez. Mas, hoje olhando para ele, fico
pensando na sua atual situação: não está tão velho assim, mas simplesmente
deixou de viver. Passa o dia em casa, fazendo não sei o que e quando o encontro
(raramente) é um mar de lamúrias. Mas, como chegou a este ponto? Para isto, é
preciso voltar no tempo.
Quando meu tio tinha seus 20 e poucos anos (década de 1960)
começou a trabalhar numa empresa da minha cidade e passou a ganhar bem. Isto o
fez comprar um carro, um luxo naqueles dias.
Para completar, ainda passou em concurso público! Cara, ele
passou a receber uma pequena fortuna todo mês e ainda não tinha 30 anos!
Aí é que segundo meus tios e outros parentes (inclusive meu
pai), meu tio passou a ter um comportamento diferente: deixou de ser humilde e
passou a ser arrogante, metido. Seria o que hoje se poderia chamar de
ostentação.
As moças eram doidas com ele (por causa do carro, hehehe) e
ele namorou cada mulherão. Mas ele não era bobo: se divertia, tinha carro do
ano, mas sempre investia em casas e terrenos. Assim, em pouco tempo já tinha um
bom patrimônio.
Quando fez trinta anos resolveu se casar com uma mulher 10
anos mais jovem que ele. Nada contra, mas minha avó ficou putaça com ele. Havia
outras moças que ele já conhecia, mas meu tio não queria saber: casou e pronto.
Pois bem, os anos se passaram e vieram dois filhos, uma
menina e um menino. Meu tio dava tudo o que eles pediam: os brinquedos mais
caros, as roupas de marcas, as viagens mais extravagantes. Para você ter uma
ideia, meu primo chegou a ter a coleção completa dos “Comandos em Ação”! Se
você não sabe o que é essa porra, pesquisa no Google. Cara, todos os brinquedos
dele enchiam a minha casa! Minha prima chegou a ter uma cacetada de Barbies.
Quando eles ficaram adolescentes, meu tio comprava CDs para eles (todos
originais). Enquanto eu me orgulhava de ter uns 4 CDs (isto em 1998), eles
tinham dezenas deles.
Passou-se mais um tempo. Meu tio se aposentou dos dois
empregos e passou a ficar mais em casa. Por não ter cuidado muito de sua saúde
(bebeu e fumou demais) passou a ter um problema respiratório grave, o que o
deixa sem fôlego ao fazer qualquer atividade física mais prolongada.
Aí você diz: os filhos e a esposa cuidam muito bem, afinal
ele sempre os deu conforto. Que nada! O coitado é tratado pior que cachorro.
A esposa se preocupa em manter a silhueta e faz todo tipo de
regime e dieta que aparece. Frequenta academia e não seria de estranhar que ela
já tenha outro, mais jovem. O filho, arrumou um emprego numa firma de
computação e vem o visitar, de vez em quando, pois mora em Campinas. A filha é
a melhor de todas: não trabalha, fica o dia inteiro dentro de casa e está
engordando assustadoramente (e pensar que ela era muito gostosa há menos de 10
anos).
E assim, meu tio segue vivendo, ou melhor sobrevivendo;
quando o encontro fico me perguntando como um homem tão ativo e inteligente se
tornou um farrapo, uma sombra do que era; está numa semi-morte.
Disso, posso tirar 3 lições:
1.
Não se case com uma pessoa muito diferente de
você. Não que seja preconceito, mas as afinidades são o que mantém qualquer
relação.
2.
Eduque seus filhos para te ajudarem, para que
possam saber o valor das coisas, não o preço. Existem pais que falam: “meus filhos não
vão passar pelo que passei”. Isso só pode dar merd@.

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